Em meio à corrida nuclear do século XX, cientistas manipulavam materiais extremamente radioativos em busca de avanços tecnológicos e militares. Entre essas substâncias estava um pedaço de plutônio-239, que ficou conhecido como o “Núcleo do Demônio” devido ao seu papel em dois acidentes fatais no Laboratório Nacional de Los Alamos, nos Estados Unidos. Esse pequeno núcleo de plutônio, destinado inicialmente a ser usado em uma terceira bomba nuclear durante a Segunda Guerra Mundial, causou a morte de dois cientistas devido a erros fatais de manipulação.
O que era?
O “Núcleo do Demônio” era uma esfera de plutônio-239 com aproximadamente 6,2 kg, medindo cerca de 8,9 cm de diâmetro. Ele foi projetado para ser o material físsil de uma bomba nuclear, semelhante à que destruiu Nagasaki em 1945. No entanto, após a rendição do Japão, o núcleo tornou-se objeto de experimentos científicos para entender seu comportamento em estado crítico – um ponto no qual a massa de material físsil pode iniciar uma reação em cadeia auto-sustentada.
Essa pesquisa era extremamente perigosa, pois pequenas mudanças nas condições do núcleo poderiam levá-lo a uma reação crítica repentina, liberando uma quantidade letal de radiação. Foi exatamente isso que ocorreu em dois acidentes fatais.


—
O Primeiro Acidente: Harry Daghlian (21 de agosto de 1945)
O primeiro incidente aconteceu com o físico Harry Daghlian, um jovem cientista de 24 anos que trabalhava no Laboratório Nacional de Los Alamos. Durante um experimento para testar a reatividade do núcleo, Daghlian adicionava tijolos de tungstênio ao redor do plutônio para refletir nêutrons e medir como isso influenciava sua criticidade.
Naquela noite, ele estava sozinho no laboratório, o que já violava os protocolos de segurança. Enquanto empilhava os tijolos ao redor do núcleo, ele acidentalmente deixou cair um dos blocos, fechando a estrutura ao redor do plutônio e empurrando-o para um estado supercrítico. Isso gerou uma intensa liberação de radiação em questão de milissegundos.
Daghlian rapidamente removeu o tijolo para interromper a reação, mas já havia sido exposto a uma dose fatal de radiação. Ele sofreu queimaduras severas por radiação, seu corpo começou a falhar nos dias seguintes, e morreu 25 dias depois, em 15 de setembro de 1945.
—
O Segundo Acidente: Louis Slotin (21 de maio de 1946)
Menos de um ano depois, o mesmo núcleo de plutônio causaria mais uma tragédia. O físico Louis Slotin, um experiente cientista que havia participado do Projeto Manhattan, estava conduzindo um experimento conhecido como “tickling the dragon’s tail” (fazer cócegas na cauda do dragão), no qual utilizava duas meias-esferas de berílio para aproximá-las do núcleo e medir sua criticidade.
O experimento deveria ser feito com extremo cuidado, utilizando espaçadores para impedir que as meias-esferas se fechassem completamente ao redor do núcleo. No entanto, Slotin preferia realizar o teste manualmente, usando apenas uma chave de fenda para manter uma pequena abertura entre as metades.
Durante uma das demonstrações para colegas, a chave de fenda escorregou e as metades da esfera de berílio se fecharam completamente, tornando o núcleo supercrítico instantaneamente. Uma intensa luz azul brilhou no laboratório, acompanhada de uma onda de calor – sinais de uma forte reação nuclear. Slotin, que estava mais próximo do núcleo, recebeu uma dose de milhares de rems de radiação, o suficiente para ser fatal em poucos dias.
Ele sabia imediatamente que estava condenado. Slotin retirou rapidamente a cobertura de berílio para interromper a reação e salvou a vida dos outros sete cientistas na sala, mas o dano já estava feito. Ele sofreu náuseas, dores intensas e queimaduras internas e externas, vindo a falecer nove dias depois, em 30 de maio de 1946.

O Destino do Núcleo do Demônio
Após o segundo acidente, os cientistas de Los Alamos decidiram que o núcleo de plutônio era perigoso demais para continuar sendo usado em experimentos manuais. Como resultado, ele foi fundido e reutilizado em outros projetos nucleares.
O apelido “Núcleo do Demônio” surgiu após a morte de Slotin, refletindo sua reputação mortal. Os acidentes levaram a uma revisão rigorosa dos protocolos de segurança na manipulação de materiais nucleares, garantindo que testes críticos não fossem mais realizados manualmente.
Impacto e Legado
Os eventos trágicos envolvendo o Núcleo do Demônio destacaram os riscos da pesquisa nuclear e a necessidade de medidas de segurança mais rigorosas ao trabalhar com materiais altamente radioativos. O sacrifício de Daghlian e Slotin serviu como um alerta para a comunidade científica, levando à adoção de equipamentos automatizados e controles remotos para reduzir a exposição direta a plutônio e outros materiais físsil.
Hoje, o Núcleo do Demônio é lembrado como um dos exemplos mais perigosos do poder do plutônio e dos riscos da manipulação imprudente de materiais nucleares. Seus acidentes foram decisivos para moldar a segurança na área da energia nuclear, garantindo que tragédias semelhantes não se repetissem.
Conclusão
A história do Núcleo do Demônio é um relato sombrio da era atômica, mostrando o perigo real e imediato que o plutônio representa. Os erros cometidos nos experimentos de Los Alamos ensinaram lições valiosas sobre segurança nuclear, reforçando a importância da precaução e da ciência responsável no uso de tecnologia nuclear.
Por trás das descobertas e avanços, estavam cientistas que arriscaram suas vidas, alguns pagando o preço mais alto. Suas mortes não foram em vão, pois ajudaram a estabelecer protocolos que, até hoje, protegem pesquisadores e trabalhadores da área nuclear.


Deixe um comentário